Literatura, vivências

Vivenciando a mortalidade

Todos nós sabemos que iremos morrer. É um fato. Agora nos resta saber o que fazer com essa informação e como lidar com essa verdade.

Nunca soube me relacionar bem com a morte, sempre fugi da realidade, nunca quis participar de ritos e sempre achei extremamente desnecessário velar um corpo. Já deixei de participar de vários velórios de parentes, familiares de pessoas próximas e até de amigos por não saber lidar com a ocasião.

Siplesmente não sei o que dizer àquelas pessoas que estão sofrendo e lamentando a perda de alguem querido por mais que eu também esteja abalada e triste. Prefiro não comparecer.

Em tempos de pandemia, onde o descaso do nosso governo além do descaso de boa parte da população fez com que o número de mortos no país seja altissimo, o luto é constante e está em tudo. É difícil manter qualquer conversa sem nos lembrar das milhares de mortes já registradas até o momento. Cenas de hospitais sem oxigênio, covas sendo abertas além do natural para suportar esses corpos levados antes da hora pela pandemia do coronavírus.

Obviamente não é um cenário natural, mas a maioria de nós não sabe lidar com a morte mesmo ela sendo sendo natural. É o meu caso. Ainda estou tentando lidar com uma pessoa querida que faleceu há vários anos, de certa forma não me conformo.

Diante dessa inquietude, resolvi apostar na leitura de “Confissões do Crematório: Lições para Toda Vida” (Darkside) escrito por Caitlin Doughty e não poderia ter saído melhor dessa experiência. Caitlin nos conta um pouco da sua vivência como funcionária de um crematório e amadurecimento da sua relação com a morte. Além de nos contar sua experiência com corpos num crematório, a autora traz também passagens históricas e filosóficas relacionadas à morte.

Para quem gosta de séries e assistiu The Midnight Gospel vai se lembrar do epsódio onde Clancy Gilroy encontra a morte. A morte foi dublada por Caitlin Doughty num bate papo com Duncan Trussell, criador da série inspirada em programas de podcast de entrevistas sobre temas filosóficos e encantadores. Leia mais aqui.

The Midnight Gospel – Netflix

O livro traz várias passagens onde a autora conta como as famílias lidam com a morte, como as pessoas planejam um rito, os desejos deixados antes da morte e a nossa realação com tudo isso.

Uma certa frase de Caitlin Doughty ficou muito nos meus pensamento e ainda reflito sobre ela:

“Nós vivemos nessa cultura. Uma cultura da negação da morte. Essa negação assume muitas formas. Nossa obsessão pela juventude, os cremes, os produtos químicos e as dietas desintoxicantes oferecidos por aqueles que querem vender a ideia de que a idade natural dos nossos corpos é grotesca.

Não consigo mensurar o quanto essa negação é real no meu círculo familiar e social. Lutamos a todo momento contra o envelhecimento, que é visto um passo para a morte. A indústria farmacêutica e da beleza nos faz acreditar que envelhecer é um erro, acabamos comprando essa ideia e consumimos loucamente tudo o que nos dizem retardar esse passo em direção à morte.

Uma matéria da Forbes de 2020 descreve o Brasil como o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais do mundo e afirma que surgiram além dos protetores solares, propostas de cuidados alternativos como ioga facial, todas voltadas para o rejuvenecimento. A quantidade de procedimentos cirúrgicos e medicinais que prometem retardar o envelhecimento é imensurável, e a maioria de nós não só acredita como cede à mais essa pressão social. Cuidar da saúde, da pele, da forma como nos alimentamos faz parte do autocuidado, sim mas o fato de não querermos encarar o envelhecimento como algo comum e natural é um problema que precisa ser discutido com mais veemência. Assim como falarmos sobre a morte, algo natural e que vai chegar para todos nós.

“Nunca é cedo demais para começar a pensar na própria morte e na morte das pessoas que você ama. (…) Uma cultura que nega a morte é uma barreira para alcançar uma boa morte.” Confissões do Crematório: Lições para Toda a Vida – Caitlin Doughty (Darkside

Depois de muito refletir durante e após a leitura, acredito ter aprendido muito sobre mim mesma e sobre a morte. Talvez depois disso tenha aprendido a lidar de maneira mais natural com esse que é final, ao menos nessa Terra, de todos nós.

Excelente leitura.

Imagem de capa Ilustração: André Ducci

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