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Green Book – O Guia

O ano de 2019 nos reserva bons entretenimentos. O que é muito bom para que nós não enlouqueçamos, não é mesmo?

Dia 24 de janeiro estreou nos cinemas, o filme “Green Book – O Guia”. Protagonizado por Viggo Mortensen (Senhor dos Aneis) e Mahershala Ali (Moonlight), o filme que é baseado numa história real, se passa em meados dos anos 1960 e relata a história de um ítalo-americano que trabalha como motorista de um famoso e renomado pianista negro (Don Shirley), criando um laço entre os dois durante uma viagem ao sul racista dos Estados Unidos.

Green Book – O Guia foi o grande vencedor do Globo de Ouro 2019 na categoria Melhor filme musical ou comédia e sua produção ficou com os prêmio de melhor ator roteiro e o prêmio de melhor ator coadjuvante ficou com Mahershala Ali, o que reforça a concorrência do filme para o Oscar de 2019.

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Green Book – O Guia

O livro “The Negro Motorist Green Book”, que serviu de inspiração para o filme, foi publicado em 1936 e conta com dicas para viajantes negros de como viajar ao Sul dos Estados Unidos, com políticas segregacionistas e racistas. E é assim que os dois seguem lidando com o racismo.

O filme é dirigido por Peter Farrelly (O amor é cego) e traz questões referentes ao racismo existente no sul dos EUA naquela época, mas que se trouxermos para nossa realidade ainda permanece. 

Nas décadas passadas, entre 1940 e 1960 viajar pelos EUA não era algo simples e fácil. Quem precisava visitar pais ou parantes em cidades sulistas, eram impedidos de parar para comer ou ir ao banheiro, para isso os motoristas utilizavam o “Green Book” com dicas de paradas e de onde os negros estariam mais seguros. “Para as famílias negras, preparar-se para uma viagem de carro exigia um plano de batalha bem testado, no qual nada poderia ser deixado ao acaso. E havia outro item que Gardner lembra que seus pais nunca se esqueceram de fazer as malas: o Livro Verde dos Motoristas Negros. Enquanto seu pai dirigia, sua mãe folheava as páginas para ver se havia restaurantes, postos de gasolina ou banheiros em sua rota, onde não seriam incomodados ou em perigo.” The Whasington Post.

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 O “Green Book” foi criado em 1936 por Vitor Hugo Green, um funcionário dos Correios do Harlem, Nova York. O livro estabelecia locais seguros para viajantes negros a restaurantes, postos de combustíveis e farmácias e foi republicado por mais de 30 anos, sendo sua última edição impressa em 1967.

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Exemplares antigos do livro verde Fonte: The Washington Post

Os viajantes negros, muitas vezes famílias se arriscavam a passar por muito mais do que somente humilhação de não serem aceitos nos estabelecimentos, eram riscos reais de morte e violência caso parassem no local errado.

Segundo matéria publicada no Whashington Post apesar da Lei dos Direitos Civis de 1964 tenha colocado fim em muitas práticas racistas permitidas ainda pelas leis de Jim Crow, o negro norte americano ainda se sente ameaçado e em situações muito semelhantes ao viajar pelo país. Eles ainda temem encontrar policiais racistas ou passar por cidades onde não são aceitos.

Para conseguir seguir viagem, muitas pessoas fingiam ser motoristas de pessoas brancas e andavam com chapéu dentro de seus carros, o que facilitava a abordagem.

“A estratégia do chapéu com motorista contém indícios do “passe de escravos”, uma nota de permissão que as pessoas escravizadas tinham que carregar a qualquer momento em que estivessem viajando sozinhas – evidência de que as viagens há muito são perigosas para os americanos negros.”

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 Um projeto para que o livro seja adaptado para uma série de TV já existe há ano mais foi adiado quando os criadores souberam da existência do filme. O cineasta Chandus Jackson, um dos criadores da série disse que se sentiu decepcionado com o filme, por não enfatizarem a importância do livro para o empoderamento do povo negro naquela época, que podiam ter seus próprios automóveis.

Empoderamento? Ok, você tem um veículo seu, o que realmente é muito importante, mas qual a vantagem de se viajar com um guia que te diz estrategicamente por onde passar caso queira permanecer vivo? Acho que precisamos pensar bastante sobre isso.

O fato é que continuamos precisando nos organizar para sobreviver.

Nos últimos anos, os viajantes negros foram rejeitados pelos anfitriões da Airbnb e iniciados a partir de uma turnê de vinhos em Napa Valley, em um caso que levou a um processo de discriminação racial, segundo a matéria do WP. No Brasil surgiram ideias como a de Carlos Alberto da Silva Filho que depois de sofrer racismo na plataforma decidiu criar uma startup da mesma maneira para o público negro.

Ideias assim nos fortalecem e não segregam como dizem por aí. Nos aproxima e passamos a ter o que nos foi negado. Praticamente possuímos quase que instintivamente um Green Book em nossas cabeças.  

 

Kelly Souza

 

 

 

 

TRAVELING WHILE BLACK. Some Americans are afraid to explore their own country, concerns that evoke the Jim Crow-era Green Book
https://www.washingtonpost.com/news/national/wp/2018/01/26/feature/traveling-while-black-why-some-americans-are-afraid-to-explore-their-own-country/?noredirect=on&utm_term=.a7667ae18c2e

Livro visto no filme “Green Book” vai virar série de TV
https://www.bol.uol.com.br/entretenimento/2019/01/16/livro-visto-no-filme-green-book-o-guia-vai-virar-serie-de-tv.htm

 

 

 

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