empoderamento, feminismo, racismo, representatividade

Ainda sobrevivendo

“Toda minha solidariedade às pessoas que morrem todos os dias, vítimas de assaltos, os policiais e não só a Marielle. Marielle foi só mais uma.” Escreveu o branco de meia idade no último comentário que consegui ler numa publicação da Google no Facebook. Antes disso li “Foi só essa moça que morreu hoje, Google?”.

Bom, aparentemente ninguém nos escuta mesmo. Assim como ninguém lê ou se importa com estatísticas, já que todo e qualquer ato negro é resumido em mero vitimismo.

A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. ³

 

Vamos aos números e fatos. Segundo o Atlas da Violência, publicado pelo Ipea em 2017 de cada 100 pessoas que sofrem homicídio no país, 71 são negras. Ainda de acordo com a publicação, o cidadão negro possui chances 23,5% maiores de sofrer assassinato em relação às outras raças, já levado em consideração efeitos de idade, sexo, escolaridade, estado civil e local de residência.

Os números em relação às  mulheres no Brasil, o Atlas afirma que enquanto a mortalidade de mulheres não negras apresentou redução de 7,4% (2005 / 2015), a mortalidade de mulheres negras teve um aumento de 22% no mesmo período.
Os dados mostram também que a proporção de mulheres negras vítimas de mortes por agressão também cresceu de 54,8% em 2005 para 65,3% em 2015

Diante destes fatos, podemos dizer que mesmo com a situação de melhoria socioeconômica nos últimos anos exceto pelo retrocesso do último, podemos afirmar que a população negra continua sendo massacrada, o que podemos considera-se também como genocídio.

Segundo Cláudia Rosalina Adão “O genocídio de negros e negras no Brasil não é algo pontual, fatídico, mas um processo construído historicamente”. Segundo Cláudia, as políticas de exclusão que aconteceram no período pós-abolição, só contribuíram para que a população negra não tivesse acesso aos recursos como mercado de trabalho, juntamente com a segregação racial, culminando nas condições de extermínio. Para Cláudia Rosalina, esse período ainda perdura “É um processo que não se findou, visto que as periferias configuram-se como territórios de produção e reprodução da morte”.

grafico ipea.PNG

“Trocando em miúdos, 65,3% das mulheres assassinadas no Brasil no último ano eram negras. (…) Em 2015, 4.621 mulheres foram assassinadas no Brasil, o que corresponde a uma taxa de 4,5 mortes para cada 100 mil mulheres.” Quando as diferenças raciais comam-se às questões de gênero, estes números aumentam.

De fato não é só por Marielle. E escrever isso muito me entristece.

É por Maria Beatriz Nascimento, Cláudia Silva Ferreira e tantas outras mulheres e homens pretos que foram assassinados neste país.

Outro fato é que a branquititude não se importa com a estatística, muito menos com os corpos pretos que são abatidos todos os dias. Não se importa se a juventude negra continua morrendo. A branquitude se importa com os seus iguais e porque nós não podemos fazer o mesmo?

Quando formos às ruas, vamos por Marielle e por diversas mulheres pretas que morrem todos os dias e deixam filhos e uma história de vida que muitas vezes não chega aos noticiários.

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Marielle Franco, Cláudia Silva Ferreira e Maria Beatriz Nascimento

“Manifestação não é carnaval. Respeitem nosso luto. Estamos num ato em repúdio ao genocídio da juventude negra” disse uma das ativistas negras no ato em repúdio à morte de Marielle Franco, que assim como eu, não soube lidar com o absurdo que era ver um ato de manifestação e luto, transformar-se em carnaval.  Diga-se de passagem que a mulher em questão foi chamada de racista (coisas de BH).

Marielle saiu da favela, estudou e chegou onde tinha voz ativa e muito trabalho. Foi silenciada. O que sinto no momento, talvez não seja possível expressar neste ou em qualquer outro texto, palavras não são suficientes para dizer que não sabemos mais o que fazer com todo esse medo.

A branquitude: respeitem os pretos. Deixem mulheres pretas falarem. Respeitem o lugar de fala do outro.

A vocês pretos e pretas: abracem os seus, esteja presente e fortaleça uns aos outros. Se não formos nós por nós mesmos, continuaremos morrendo e o resto do mundo continuará não se importando.

Permaneça vivo. Permaneça viva.


Fontes

Atlas da Violência
http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf

Existe genocídio no Brasil?
https://www.almapreta.com/editorias/realidade/existe-genocidio-negro-no-brasil

A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, diz CPI ³
http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295

Kelly Souza

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