Literatura, representatividade

Wakanda, Pantera Negra e o Afrofuturismo

Com o lançamento e o frisson de Pantera Negra nos cinemas, levantou-se mais uma vez a bola sobre o Afrofuturismo que está presente em todo o filme de maneira bem representada e forte.

Mas o que de fato é o Afrofuturismo? Há algum tempo, quando me interessei pelo tema, fiquei fora de órbita com tanta informação rica e maravilhosa sobre nosso povo.

Afrofuturismo, termo criado em 1993 pelo autor branco Mark Dery no seu texto “Black to the Future”, que estuda a ficção científica através de olhos e mãos negras. O texto traz diversas entrevistas com criadores negros que discutem questões como a diferença da ficção científica padronizada e o afrofuturismo.

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A base do Afrofuturismo é o foco nas tradições africanas e uma ficção inspirada na identidade negra. Segundo o texto elaborado por Dery (1993) um único personagem negro não caracteriza um mundo afrofuturista, o contexto precisa ser bem elaborado com base na cultura negra.

Na verdade, a criação do termo em 1993, não faz com que o movimento tenha início nesta época. Segundo Fábio Kabral, no texto “[Afrofuturismo] O futuro é negro – o passado e o presente também” o termo foi incluso na literatura na década de 90, porém vários artistas já faziam belíssimos e importantes trabalhos como Octavia Butler e Samuel Delany, com seus romances de ficção científica e Sun Ra já usava a psicodelia na música. Resumindo, o Afrofuturismo não foi inventado por brancos, apesar de parecer.

Para quem gosta de Podcast, este do Lado Negro está maravilhoso, participaram Augusto Oliveira, Rodrigo Candido, Kelly Cristina e Fabio Kabral.

“A atual concepção sobre Afrofuturismo, a que figura na maioria das matérias sobre, é mais ou menos a seguinte: um movimento artístico que combina elementos de afrocentricidade, ficção científica, ficção histórica, ficção fantástica e realismo mágico-animista com cosmologias de inspiração africana com o intuito de denunciar os preconceitos atuais sofridos pelas pessoas negras, bem como questionar, reimaginar e reinventar os eventos históricos do passado. É essa a definição plastificada, repetida por matérias e sites gringos. E devo dizer que não gosto dessa descrição, pois, pra mim, Afrofuturismo vai muito além disso. Vai muito além de um rótulo espetaculoso.” Fábio Kabral 

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Imagem: Mati Klarwein

Um dos conceitos que encontramos com frequência, durante a pesquisa por afrofuturismo é “Afrofuturismo é um movimento estético, político e crítico plural e multifacetado, tendo como ponto em comum uma narrativa especulativa, alternativa e fantástica para as experiências das populações negras – de todo o mundo – no passado, no presente e no futuro. As obras são influenciadas por elementos da ficção especulativa – ou seja, da ficção científica, do hiperrealismo, da fantasia, das diversas mitologias de origem africana”, porém vou utilizar neste texto a definição escrita por Fábio Kabral que me parece um pouco mais coerente que é “Afrofuturismo é mudar o futuro para mudar o passado que lhe foi imposto. Afrofuturismo é traçar o seu próprio caminho como pessoa preta no mundo por meio da sua arte, por meio da sua escrita. Afrofuturismo é africanizar o seu próprio caminho daqui por diante.” É mais que suficiente.

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O caçador Cibernético da Rua treze – Fabio Kabral

Portanto, entendemos que criar cenários onde a tecnologia, a arte, a música e escrita negra estão num futuro criado por mãos negras. Segundo Kabral, é preciso reconstruir: tudo o que conhecemos na ciência, filosofia, engenharia, medicina e arte surgiram inicialmente no Vale do Nilo, em civilizações negras e depois espalharam-se pelo mundo: “(…) é por isso que é seguro dizer que o Afrofuturismo não se propõe a uma mistura do que seria intrinsecamente europeu (a ciência) com o que seria intrinsecamente africano (o espírito) e sim uma compreensão do que sempre foi africano em sua origem (a ciência) e juntar novamente com a sua essência (o espírito) . Pois saiba também que essa divisão entre “ciência” e “espírito” é uma deturpação europeia.”

Pink story. Tebogo Ribane by @wandalephoto
Pink story. Tebogo Ribane by @wandalephoto

A jornalista e pesquisadora Kênia Freitas, curadora da mostra Afrofuturismo que aconteceu no ES em 2015, explica em entrevista que o Afrofuturismo é fundamental em nossa cultura uma vez que é essencial a reivindicação para que nós negros sejamos os verdadeiros responsáveis pela narrativa da nossa própria história. “A partir do momento que é possível assumir a autonomia dos discursos do futuro, é possível travar as lutas do presente – do planejamento e contestação desse futuro. É algo que passa pela arte, pelo lúdico, pela fantasia – o que desloca a luta para outros campos.” Kênia Freitas

Voltando o tema para o cinema, temos alguns destaques internacionais como Afronauts (Frances Bodomo) e Born in Flames (Lizzie Borden).

No cinema nacional, podemos citar Branco Sai, Preto Fica” disponível na Netflix (Adirley Queirós) e o curta  Rapsódia para um Homem Negro (Gabriel Martins).

AFRONAUTS TEASER from Frances Bodomo on Vimeo.

“16 de julho de 1969: a América prepara-se para lançar Apollo 11. Milhares de quilômetros de distância, um grupo de exilados da Zâmbia está tentando derrotar os Estados Unidos no envio da primeira pessoa a Lua.”

Voltando a falar sobre Pantera Negra, a presença de uma narrativa feita por mãos negras e num cenário futurista como Wakanda, nos remete diretamente ao Afrofuturismo. Laboratórios de alta tecnologia, carros voadores e maravilhas da medicina, num lugar onde as mãos brancas dos colonizadores não conseguiram alcançar (e isso fica bem estabelecido no filme).

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Pantera Negra de certa forma reescreve parte da história nas nações africanas no cinema, colocando Wakanda como um país africano autossuficiente nunca colonizado e ainda a nação mais avançada do mundo.

Além da tecnologia de ponta, o próprio personagem e herói Pantera Negra usa uma roupa confeccionada sobre medida para ele, ao contrário do imaginário da branquitude que lida com um corpo negro sempre nu, tribal mas de maneira sempre selvagem. A trilha sonora também merece atenção.

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Imagem: Divulgação

Como eu disse, um filme feito por mãos negras (apesar de estar em Hollywood, assunto para outro post), Pantera negra contou com elenco predominantemente negro além de uma equipe de produção, produção executiva, designer de produção e figurino também negros.  Talvez por este motivo, conseguimos ver tantos acertos.

Ancestralidade, visão de um futuro próspero e tecnologia desenvolvida nos aproxima do Afrofuturismo, deixando um gostinho de quero mais e a vontade de mergulhar cada vez mais neste universo futurista.

Esperamos que seja apenas o começo. Que Black Panther seja o início de muitos outros filmes, onde o negro é dono de sua própria história sem submissão e criando seu próprio futuro.


Fontes
Kabral, Fábio. Afrofuturismo, o futuro é negro, o passado e o presente também.
Matias, Alexandre. O Afrofuturismo no Brasil.
Dery, Mark. Black to the future.

Kelly Souza

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