cabelo, empoderamento, representatividade

Negra, talentosa mas sem cabelo crespo, por favor.

Faltam modelos negras. Faltam mulheres e homens negros em capas de revistas famosas. Faltam modelos negras nas passarelas e nas capas de revistas, mesmo quando os desfiles tem sua inspiração na África, como aconteceu no desfile da Coven, onde num casting enorme de modelos apenas 4 eram negras. A estilista responsável pelo desfile alegou não conseguiu “montar um casting majoritariamente negro por falta de modelos”. Claro.

Lupita Nyong’o minha eterna inspiração vencedora de um Oscar, BET Award e que já foi eleita a mulher do ano, passou por uma tentativa de embranquecimento em uma capa de revista. Lupita reclamou nas suas redes sociais da edição em uma foto que fez para a revista Grazia em que simplesmente alisaram e DESAPARECERAM com seu cabelo crespo. 

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Imagem Instagram

“Estampar a capa de uma revista me satisfaz, pois é uma oportunidade de mostrar a outras pessoas negras – principalmente às nossas crianças – também com cabelos crespos e volumosos, que elas são lindas do jeito que são. Eu estou decepcionada”

Nas palavras de Lupita:

“Como já deixei claro com tanta frequência no passado, abraço minha herança natural com todas as fibras do meu ser e, apesar de ter crescido pensando que uma pele clara e cabelos sedosos eram padrão, agora sei que minha pele escura, assim como os meus cabelos crespos, são lindos. Estampar a capa de uma revista me satisfaz, pois é uma oportunidade de mostrar a outras pessoas negras – principalmente às nossas crianças – também com cabelos crespos e volumosos, que elas são lindas do jeito que são. Eu estou decepcionada com o fato da @graziauk ter me convidado para estar na capa deles e, em seguida, tenha editado e alisado meu cabelo para que ele se adequasse à sua noção de como um cabelo lindo se parece. Se eu tivesse sido consultada, teria explicado que não posso apoiar ou tolerar a omissão do que é minha herança nativa, com a intenção de que eles apreciem. Ainda há um longo caminho a percorrer para combater o preconceito inconsciente contra a pele e o cabelo das mulheres negras.”

É revoltante, mas não é novidade. Quando falei aqui no blog que quase nunca via modelos com cabelos crespos grandes, sempre me perguntei se era uma opção delas ou se isso é realmente imposto pela indústria da moda. Nunca tive a oportunidade de perguntar à alguma modelo se ser careca era uma opção ou uma imposição. Visto que mulheres negras ficam maravilhosas de qualquer jeito, inclusive carecas.

A modelo Londone Myers já havia mostrado sua indignação, quando segundo ela chegou a um desfile sem produção e simplesmente foi ignorada pelos maquiadores e cabeleireiros. Seu cabelo é crespo tipo 4c (aparentemente) e as pessoas alegam que não sabem lidar com “esse tipo de cabelo”. Falta de interesse, falta de profissionalismo, sobra racismo. Acredito que a maioria ainda acha que não precisávamos estar ali.

“Eu estava tão frustrada com a maneira com que as pessoas evitavam até olhar para mim. Eu normalmente arrumo meu cabelo antes de cada desfile, mas, desta vez, eu apareci sem nenhuma produção, como todo mundo. (…) As outras garotas negras do casting falavam francês, então eu fiquei um pouco sozinha. Eu simplesmente perguntei para as pessoas quem fazia o cabelo das negras e fui colocada de lado (…)”  Londone Myers em entrevista para a revista Teen Vogue

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Imagem Instagram

Quando pesquisamos capas de revistas com modelos negras, além de aparecerem pouquíssimas, em quase 100% das vezes, estas modelos estão com os cabelos presos ou bem curtos.

Acontece o mesmo com as modelos de passarela. Observem os desfiles das marcas mais famosas do mundo, normalmente tem no máximo 5 modelos negras belíssimas porém todas com seus cabelos bem “domados”.

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Quando penso que os padrões estão sendo alterados e superados, uma mulher branca que faz praticamente todos os comerciais da TV em horário nobre nos diz que fazer referência a beleza negra num comercial de papel higiênico “é politicamente correto demais” ao mesmo tempo em que temos modelos negras sendo embranquecidas em capas de revista, juntamente com seus cabelos bem presos, curtos ou retirados da imagem.

E aquela esperança de que um dia as marcas, o mundo da moda, as escolas, a tv, as universidades e toda a sociedade terminará de vez com esse padrão eurocêntrico de beleza, se esvai cada dia mais.

Sei que o progresso foi grande, mas ainda falta muito. Sabe aquela negra que não é tão negra assim? Pois é. Estas serão sempre bem vindas, desde que tenham seus cabelos comportados e que não façam “coisa de preto” como dizem por aí.

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