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Ocuparemos, sim.

Adoro comparecer à eventos relacionados à literatura, cinema e cultura negra. Mas não só da cultura negra. Gosto de ler, gosto de cinema e isso independe de questões raciais. Sempre que posso gosto de pegar autógrafos, sim. Sou dessas.

Quando estas pessoas são negras, obviamente compareço com o coração ainda mais cheio de amor e gratidão. Morar em Belo Horizonte nem sempre me proporciona grandes eventos ou grandes encontros negros, sobrando às vezes somente locais onde a maioria é branca.

Confesso também que já vi muitas coisas que me desanimaram a estar presente em todos os pouquíssimos eventos que temos por aqui, mas compareço sempre que posso.

Aprendi que nem sempre estar num local “badalado” vale todo o meu nervosismo e dor no estômago, mas sei que de fato é necessário ocupar.

Há pouco tempo estive num certo evento com um total de três pessoas negras meio há várias brancas. Sempre volto destruída para casa, mas com uma sensação de que é necessário fazer alguma coisa. Mas o que? Ir aos eventos na zona sul, totalmente embranquecidos ou ir somente em eventos do povo negro?

Ainda não tenho a resposta para estas perguntas. Sei que é extremamente necessário que nós negros ocupemos todos os espaços. Temos que estar em todos os lugares, sim. Obviamente. Mas ainda não consigo ignorar toda a branquitude me encarando como se não estivesse no meu lugar de direito. Ainda me deixa perturbada. me falta ódio

Quando uma editora coloca o lançamento de um livro escrito por um ator negro de sucesso, num shopping na zona sul de acesso quase exclusivamente branco, num horário onde a maioria das pessoas negras trabalham e dificilmente conseguiriam chegar a tempo, me faz pensar o quanto somo forçados a realmente não estar nestes locais.

Imagino que neste caso , todo o esforço para comparecer é válido. Dia desses uma amiga também blogueira, me disse que precisamos ocupar. Precisamos estar onde as pessoas brancas não querem que nós estejamos. Precisamos deixar de ser a única negra (o) do local. Mas para isso é necessário força.

Sei que estou em falta e muito me envergonho por nem sempre conseguir seguir essa linha de pensamento que é a correta. Precisamos de fato ocupar.

Não serei hipócrita ao ponto de dizer que é fácil para mim, estar em locais onde claramente não sou bem recebida. É preciso ser forte, de fato. Ser forte, forte como nós negros e negras somos. Isso ainda me falta. Às vezes sinto como se a força que tinha já não é a mesma de anos atrás.

Talvez e quase certamente os espaços hoje estão mais enegrecidos graças à estas pessoas que estão ocupando desde sempre. Que mesmo com olhares tortos de repreensão e puro racismo, insistem em permanecer e ocupar. Sou extremamente grata à todos vocês.

Carrego a esperança de um dia este sofrimento de “ocupar” não me seja tão doloroso, cruel e que de fato estejamos todos onde quisermos sem precisar provar nada para ninguém.

Enquanto isso não é possível, faremos de tudo para ocupar, desde que isso não custe a nossa saúde mental e física.

Kelly Souza

 

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