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Joaquina Maria da  Conceição da Lapa ou Lapinha- a primeira cantora lírica do Brasil

Há alguns meses meu namorado me mostrou uma reportagem falando sobre a história de Lapinha, a primeira cantora lírica negra do Brasil. Uma história maravilhosa e que desde então tento escrever aqui no blog, mas até hoje não havia conseguido, pois queria o máximo de informações possíveis. Deixei o post de lado.

Eis que o FAN – Festival de Arte Negra em sua edição de 2017, homenageará Joaquina Maria da  Conceição da Lapa, conhecida como Lapinha. Então, este é o melhor momento para falarmos sobre ela.

Muito se fala sobre Chiquinha Gonzaga, cantora brasileira que se destacou no cenário cultural do país no século XIX, atuando além da música também como abolicionista, lutando a favor do direito das mulheres e dos artistas. Porém, conforme cita a Revista Eletrônica de Musicologia¹ é um erro dizer que Chiquinha, apesar de toda a sua importância, tenha sido a pioneira como cantora profissional no Brasil. Joaquina Maria da Conceição ou Joaquina Lapinha, nascida em Minas Gerais, mulher negra e filha de negros, começou a atuar como atriz no Rio de Janeiro na década de 80 no século XVIII, quase um século antes de Chiquinha.

“Joaquina Maria da Conceição Lapa, a Lapinha, nasceu em Minas Gerais. Ela começou atuar em óperas no Rio de Janeiro na década de 1780, encenou várias peças do italiano Giovane Paisiello (1740-1816) e Domenico Cimarosa (1749- 1801), os compositores mais conhecidos do gênero da época. Fortunato Mazziotti (1782-1855), do português Marcos Portugal (1762-1830) e do compositor brasileiro José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) que lhe dedicou papeis líricos em “Ulisséia” e em “O Triunfo da América”. Depois de seu começo de carreira no Rio de Janeiro, a cantora se apresentou em várias cidades de Portugal entre 1791 e 1805. Em 6 de fevereiro de 1795 o jornal Gazeta de Lisboa fez uma crítica à cantora: “a 24 do mês passado, houve no Teatro de São Carlos desta cidade o maior concurso que ali se tem visto, para ouvir a célebre cantora americana Joaquina Maria da Conceição Lapinha, a qual, na harmoniosa execução do seu canto, excedeu a expectação de todos: foram gerais e muito repetidos aplausos que expressavam a admiração que causaram a firmeza e a sonora flexibilidade da sua voz, reconhecida por uma das mais belas e mais próprias para teatro. Além de receber aplausos dos portugueses, ela havia superado outra barreira na Europa: foi a uma das primeiras mulheres a receber autorização para participar de espetáculo público em Lisboa” (Castagna, 2011, p. 78/79)

Lapinha, depois de ser reconhecida como cantora e atriz no Brasil, fez apresentações também em Portugal onde se destacou. A companhia onde Lapinha se apresentava, obteve muito sucesso da sociedade carioca naquele época, destacando-se e anos depois partiu para Portugal onde viveu por muitos anos.

Sobre a participação de Lapinha em um elenco português, notamos que apesar de todo o seu talento, os críticos ressaltavam a tonalidade de sua pele e reforçavam a questão da sua negritude. Em relação às suas atuações em Portugal, Carls Ruders cita o talento de Lapinha e sua pele “bastante escura”.

“A terceira actriz chama-se Joaquina Lapinha. É natural do Brasil e filha de uma mulata, por cujo motivo tem a pele bastante escura. Este inconveniente porém remedeia-se com cosméticos. Fora disso tem uma figura imponente, boa voz e muito sentimento dramático (RUDERS, [1800] 2002, v. 1, p. 93-4).” Em vários documentos que contém citações sobre a cantora, há a citação de que Lapinha utilizava “pós de arroz” ou tinta branca no rosto para que fosse mais ceita pela sociedade europeia.

Vale ressaltar que a época, não era permitido que mulheres se apresentassem em palcos públicos em Portugal. Segundo historiadores e críticos, Lapinha devia de fato ser muito talentosa, visto que conseguiu permissão para cantar no renomado teatro de S.Carlos em Lisboa em 1795.²

Segundo Rogério Budasz, em Teatro e música na América portuguesa: 7 convenções, repertório, raça, gênero e poder (2008)³, a mistura racial no palco e na plateia dos teatros brasileiros impressionava os turistas europeus e americanos, gerando muitas vezes comentários de deboche, que apelavam para os estereótipos da miscigenação.

A plateia do Teatro de São Pedro, foi descrita pelo médico da Marinha americana William Ruschenberger com as seguintes palavras:

“Não havia sequer uma mulher na platéia; negros e brancos estavam misturados promiscuamente. Após a ópera, apresentaram algumas danças muito boas, embora, na minha opinião, os intérpretes deveriam diminuir a extensão de suas  genuflexões e aumentar a espessura e comprimento de seus trajes: eles pareciam estar ‘Em roupa muito fina, e bem pouca.’ Negros e brancos alegres e ruidosos comiam e bebiam juntos, aparentemente nos termos mais familiares de igualdade.”

Lapinha sempre excedia à expectativa de todos, que encerravam os espetáculos com muitos aplausos de admiração, sendo reconhecida como uma das mais belas vozes e mais apropriadas para o Teatro. Além dos aplausos portugueses, como foi ressaltado, Lapinha também venceu o machismo sendo uma das primeiras mulheres a receber autorização para encenar um espetáculo público em Lisboa.

Infelizmente não existem imagens e registros fotográficos ou pinturas de Lapinha. O único registro ligado à cantora, foi criada pelo artista plástico Mello Menezes, à pedido do proprietário de um bar chamado “O Lapinha” que funcionava na Lapa / RJ.

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Castagna (2011) nos conta que o autor de desenho fez piada quando descreveu seu processo de criação “Imaginei uma mulher capaz de deixar os portugueses loucos (…). Assim surgiu uma mulata de olhos amendoados, cabelos cacheados e lábios desenhados. Eu acendi três velas, fumei um marafo e tomei uma cana. Aí a Lapinha veio”.

A imagem é de uma mulher negra nos padrões europeus, hipersexualizada reforçando os estereótipos da época. Não sabemos se Lapinha de fato se parecia com a imagem, porém segundo os documentos e pesquisas já realizadas nos contam sobre o seu talento grandioso como musicista.

Segundo historiadores, as dificuldades em se contar a história de Lapinha se repete com várias outras mulheres negras importantes para a formação do país, devido à escassez de fontes seguras e a falta interesse do poder público.

Em 2004, a atriz Isabel Fillardis interpretou Lapinha nos teatros com o musical dirigido por Edio Nunes que contou a história da cantora, relembrando sua importância para o cenário musical nacional e para a força das mulheres negras no país. O elenco contou também a participação de Zezeh Barbosa, que interpretou a mãe de Lapinha. No mesmo ano, a escola de samba “Inocentes de Belfort Roxo” do grupo de acesso desfilou com o tema “O triunfo da América – o canto lírico de Joaquina Lapinha”, criado e desenvolvido pelo carnavalesco Wagner Gonçalves.

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Isabel Fillardis como Lapinha em musical Imagem: divulgação

Os registros sobre Lapinha findaram-se em meados de 1813, contando sobre o seu sucesso e todo o seu potencial que encantou Brasil e Portugal durante vários anos. Pesquisas ainda são feitas, no intuito de descobrir-se mais sobre a vida e obra de Joaquina Maria da  Conceição da Lapa.

O FAN – Festival de Arte Negra de 2017 homenageará Lapinha e acontecerá em Belo Horizonte / MG entre os dias 15 e 22 de outubro com o tema “protagonismo e empoderamento da mulher negra”.

Com música e debates na programação, o FAN contará com a apresentação de Áreas da Ópera Porgy and Bess, de George Gershwin (com elenco maravilhosamente negro), participação de Zezé Motta, da cantora Ellen Oléria e da poeta Elisa Lucinda, além de uma mostra de cinema com onde a temática é voltada para a mulher negra ou com filmes dirigidos por elas. A programação estará disponível no site e página do FAN 2017.

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Vamos conhecer mais sobre os nossos, nossa cultura e nosso passado. Conhecermos nossa história nos permite valorizar nossos antepassados, nosso povo e torna mais fortes.

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Fontes

1 Joaquina Lapinha, atriz. Da sua participação na cena lírico-dramática luso-brasileira. Alexandra Van Leeuwe e Edmundo Hora. Revista de Musicologia, Volume XII 2009.

2 Cantoras Afro-Brasileiras de Ópera: uma reflexão sobre a ausência de cantoras líricas negras nos livros de história da música brasileira do século XIX. Antonilde Rosa Pires e Ana Guiomar Rêgo Souza Revista da ABPN • v. 9, n. 21 • nov. 2016 – fev. 2017, p.20-36

3 Teatro e Música na América Portuguesa: 7 convenções, repertório, raça, gênero e poder. Rogério Budasz. Curitiba – Deartes -UFPR, 2008.

 

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