empoderamento, Eventos, representatividade

Como sobreviver em eventos ou como ser blogueira e não surtar

Dia desses vi um post num site famoso de orientação e consultoria às blogueiras com a seguinte questão:”Por que ir a eventos mesmo sendo iniciante?”.

Então vamos lá. O Beleza Black Power surgiu em 2015 e eu não imaginava o quão sério era essa coisa de blog e que pessoas vivem somente disso, sem nenhuma outra renda fixa. Não imaginava que choraria de desespero, ficaria chateada muitas vezes, faria e acabaria com possíveis amizades, me emocionaria com cada depoimento e que me envolveria tanto com a blogosfera. É algo que te consome sem que você perceba.

Quem acompanha o BBP desde o início já percebeu o foco do blog: o povo negro. Quando comecei, minha intenção era falar sobre cabelos crespos, já que é algo que gosto e entendo das dificuldades que é ser negra de cabelo crespo nesse país. Muitas dúvidas, vários testes e muito tapa na cara. Depois decidi acrescentar tudo o que gosto, nem só de cabelo vive essa que vos escreve. Cinema, literatura e moda começaram a fazer parte do conteúdo do blog. Sem muito tempo para fazer tudo o que gstaria, mas sempre com muita dedicação.

Desde quando comecei a escrever, nunca cogitei ir a eventos, conhecer novas marcas e etc. Inicialmente o objetivo era somente contar o que sabia com a intenção de ajudar outras mulheres negras e homens negros.

Até que num belo dia fui convidada para um evento e descobri que ser blogueira era muito mais do que eu inocentemente sempre imaginei que era.

O evento era para blogueiras cacheadas. Ou seja, não me contemplou. Mesmo assim segui firme, porque estamos aqui para isso. Assim aconteceram diversas outras vezes. Repetidas e exaustivas vezes. Ressalto que não sou nem um pouco famosa aqui em Belo Horizonte, onde o nicho é extremamente embranquecido ou por algum outro motivo, o BBP não seja é atrativo ou talvez não seja viável, ou até mesmo trabalho não seja bem feito. Mistérios.

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Aquele ditado de que “quem não é visto não é lembrado” é bem real. O que também é real é a preocupação com a nossa saúde mental. A população negra sofre constantemente com violências bem maiores e em nada se compara ir a um evento e ser ignorado, claro que este é o menor dos problemas, por isso o ponderamento. Ir ou não? Comparecer somente para ser vista, porém não ser registrada nas fotos do evento ou participar de ações relacionadas ao evento, vale a pena? Ir somente para ser vista e não sair com a sensação de que algo de bom foi gerado e aprendido depois daquela experiência?

Talvez alguns achem que este texto seja dramático demais, afinal são somente eventos. “Pra que tanto drama, Kelly. Não vá e pronto.” Acredito que algumas empresas já se atentaram para isso e tem olhado com mais cuidado para essa questão. Inclusive, não estou implorando para ser convidada, o questionamento e ressalta serve para TODAS as blogueiras do mundo.

Óbvio que adoro comparecer aos eventos, descobrir novos produtos, ver até onde as empresas de fato estão evoluindo em relação a nossa negritude, conhecer pessoas novas e rever as antigas. Fico extremamente feliz quando lançam algo em que nós mulheres negras somos lembradas e vibro junto com as conquistas dos afro empreendedores.Tudo isso é levado em consideração. Porém de alguma forma estes eventos precisam agregar alguma coisa boa. Agregar conhecimento quando estamos num Workshop, nos lançamentos de cosméticos ou estreia de peças e filmes, dos grandes e pequenos produtores e empresários.

Falando sobre mailing e nichos específicos, é claro e óbvio que uma empresa que num evento de lançamento de produtos voltados  para cabelos lisos, convidem apenas blogueiras de cabelos lisos. Quanto a isso não resta dúvida. O problema está quando o evento é para um lançamento de um produto para cabelos crespos e as crespas não estejam ali para conhecer. O problema é quando na pré-estreia de um filme sobre mulheres negras importantes para a história, sejam convidadas somente pessoas brancas. A questão é esta.

Resolvi escrever sobre isso porque é algo que tenho notado desde minha entrada na blogosfera e que muito me incomoda. Certamente não incomoda só a mim, porém nesse mundo às vezes é melhor não nos manifestarmos. Já somos excluídas seguindo o script, imagina se sairmos dele, não é mesmo?

Até quando teremos que fingir que não existe racismo, preconceito ou o colorismo aqui? Compreendo perfeitamente que existem blogs que são extremamente profissionais e que obviamente merecem mais atenção e destaque por parte das empresas, mas quando o critério de escolha fica somente no tom da pele e no tipo de cabelo (mesmo quando o produto é voltado para aquelas que são deixadas de lado), passo a me preocupar.

Precisamos rever alguns conceitos e inverter prioridades. Eu já comecei a praticar. Caso você resolva entrar neste mundo, esteja preparada e tenha foco.

Nada é fácil para nós.

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5 thoughts on “Como sobreviver em eventos ou como ser blogueira e não surtar”

  1. Verdade Kelly, também percebo isso. Aqui no RJ, de acordo com os relatos que ouço das demais meninas e que percebo, até que muitas meninas negras da blogosfera se destacam aqui, porém, em que pese a questão capilar as crespas ainda são as que tem mais dificuldades de se estabelecerem no meio e de serem visualizadas/contatadas pelas marcas (tendo em vista a grande quantidade de eventos, empresas e feiras que tem constantemente no Estado as negras e crespas não estão em evidencia nestes)

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