Leia Autores Negros, Literatura

Leia Autores Negros | Oswaldo de Camargo

Nascido em Bragança Paulista, São Paulo em 1936, Oswaldo de Camargo escreveu seu primeiro livro de poesias, “Vozes da Montanha” aos 16 anos e a primeira publicação aconteceu em  1959, intitulado “O homem tenta ser anjo”.

Durante sua juventude, Oswaldo de Camargo tentou ser padre, porém segundo seus relatos, foi impedido pela própria Igreja Católica. Segundo o autor, o negro era visto como “violento” e muito “sensual” naquela época e que ouviu de pessoas da Igreja que a sociedade jamais aceitaria um homem negro na vida religiosa. Oswaldo foi recusado em seminários em São Paulo, São Roque, Pirapora até ser aceito em São José do Rio Preto para estudar no Seminário Menor Nossa Senhora da Paz, concluindo a formação de Padre Secular que faziam apenas dois votos, castidade e obediência.

O Autor, segundo suas própria palavras é “herdeiro de buscas culturais de negros no país, que no início do século XX começaram a reavaliação da situação do elemento afro brasileiro e partiram para tentativa de inseri-lo social e culturalmente, tendo como armas sobretudo agremiações de cultura, jornais alternativos para a coletividade, teatro negro, a literatura, sobretudo a escrita por poetas de temática afro-brasileira (…)”. Em 1959, época em que lançava seu primeiro livro, Oswaldo de Camargo era diretor de cultura da Associação Cultural do Negro, em São Paulo além de trabalhar como revisor do Jornal Estado de São Paulo, onde se tornou jornalista alguns anos antes.

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Obras Publicadas

  • Um Homem tenta ser Anjo – Poemas, Edição do autor, apresentação de Sérgio Milliet e prefácio de José Pedro Galvão de Souza, 1959.
  • 15 Poemas Negros – Série Cultura Negra, da Associação Cultural do Negro, com um estudo do prof. Florestan Fernandes, 1961.
  • Nova Reunião da Poesia do Mundo Negro – 3 poemas, antologia organizada por Léon Damas, Paris, 1967.
  • Antologia dos Poetas da Cacimba – 2 poemas, 1967.
  • O Carro do Êxito – Contos, Editora Martins, Apresentação de Jane M. McDivitt, ilustrações de Genilson, 1972.
  • A Descoberta do Frio – Novela, Edições Populares, Apresentação de Clovis Moura, ilustrações de Luiz Boralli, 1979.
  • O EstranhoEd. Rowitha Kempf ,1984.
  • A Razão da chama Antologia dos Poetas Negros Brasileiros (organização),GRD, 1986.
  • O Negro Escrito – Apontamentos sobre a presença do negro na Literatura Brasileira, Secretaria de Estado da Cultura, Acessoria de Cultura Afro-Brasileira, capa e projeto grafico Ubirajara Motta, 1987.
  • Solano Trindade, poeta do povo – Aproximações, Com-Arte-Editora Laboratório do Curso de Editoração, USP,2009.

Com poemas traduzidos para o alemão, francês e espanhol, Oswaldo recebeu em 1988 da Secretaria da Cultura de Santa Catarina, a medalha “Cruz e Sousa”, que reconhece autores de obras artísticas, científicas ou literárias que contribuem para o enriquecimento cultural e artístico do estado. Em 2015 o autor recebeu também o título de Cidadão Paulistano, que segundo Oswaldo em entrevista, representava toda a comunidade negra mostrando que na coletividade branca ainda existem pessoas sensíveis à realidade da literatura negra.

“O Brasil precisa de fato perceber que ele não será um país de cidadania plena enquanto a maioria dos negros não for absorvida nas benesses da cidadania, da igualdade verdadeira – e não romantizada -, o que não existe no nosso país ainda” Oswaldo de Camargo em entrevista ao Brasil de Fato

Oswaldo de Camargo foi integrante da Associação Cultural do Negro – ACN, como Diretor Cultural. Segundo o autor, a associação foi uma descoberta onde poderia encontrar explicações para seus questionamentos e fazer amizades.

“(…) A ACN, como outras associações, a FNB, a imprensa negra, esteve sempre ligada a poetas, etc, pensava em valorizar o negro. Então eu acredito que as associações negras, além de tentar educar, queriam confirmar que o negro, do mesmo jeito que o branco, tinha condições de ser educado, de cantar até música erudita, em suma, ter respeito, a palavra respeito é muito forte neste momento. Ele queria ser respeitado, e naquele momento a maneira de respeitar passava pela via de uma educação formal, de um bom comportamento.”  Oswaldo de Camargo: poesia, ficção, autoficção – Cerrados 40 – Revista do Programa de Pós- Graduação em Literatura, nº 4.

No período em que a Associação Cultural do Negro existiu (1954 – 1976), suas atividades foram marcadas por discursos relacionados ao cotidiano e à cultura negra, período em que a associação transformou-se num reduto dos intelectuais paulistanos.

Em relação à existência de uma “literatura negra”, o autor ressalta que desde que o negro comece a falar sobre a sua realidade e identidade como negro, trazendo memórias da sua história “mesmo dentro de uma mesma língua portuguesa, ortodoxa, acadêmica, que seja, se ele conseguir fazer isso com arte e se essa literatura estiver sancionada por uma produção, ela existirá. A produção existe. É fato. Portanto, atestada pela produção, a literatura negra existe.” Oswaldo conclui que quando um negro traz suas experiências particulares, com suas vivências que uma pessoa branca pode tentar copiar, mas não a tem, o nome que se dá é de fato “literatura negra”.

Em Maio

Já não há mais razão para chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.

Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.

Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
“Outrora, nas senzalas, os senhores…”

Mas a Liberdade que desce à praça
nos meados de maio,
pedindo rumores,
é uma senhora esquálida, seca, desvalida,
e nada sabe de nossa vida.

A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
ou se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.

Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: “Ó bendita Liberdade!”
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!

Oswaldo de Camargo em “O Estranho

——

A partir de leituras de obras de Oswaldo de Camargo, podemos afirmar que a literatura negra no Brasil é de fato muito rica e culturalmente necessária, para maior afirmação de nossa identidade e que infelizmente ainda há muito a se fazer.

“Pela via da palavra, (Oswaldo) constrói um mosaico não de identidades negras fixas feito essências, mas identificações em processo, com suas nuances e contradições. Sob a batuta do maestro, tais faces múltiplas se encontram e soltam suas vozes, que remetem a um passado / presente que muitos desconhecemos, apesar de com ele conviver praticamente todos os dias.” Oswaldo de Camargo: poesia, ficção, autoficção – Cerrados 40 – Revista do Programa de Pós- Graduação em Literatura, nº4.

Leia Autores Negros, leia Oswaldo de Camargo.

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