Literatura, racismo, representatividade

Leia Autores Negros Especial Novembro Negro | Cruz e Souza

João da Cruz e Sousa, nascido em 24 de novembro de 1861 em Florianópolis, Santa Catarina foi filho de pais negros escravos alforriados e mais tarde tornou-se escritor.

Já aos 8 anos, Cruz e Souza já escrevia poemas e os declamava, demonstrando grande talento com as palavras. Somente foi possível que frequentasse a escola, devido aos apadrinhamentos que os senhores de escravos faziam naquele tempo. Após viajar pelo Brasil, o jovem escritor decidiu engajar-se na causa abolicionista e aos 20 anos fundou juntamente com Santos Losada e Virgílio Várzea, o jornal Colombo.

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Cruz e Souza (1861-1898)

Em 1885 Cruz e Souza publicou seu primeiro livro “Tropos e Fantasias” obra em prosa com textos com posicionamentos contrários à escravidão. Praticamente todo o período em que o autor esteve em Santa Catarina é marcado pela luta contra o racismo, do qual ele mesmo era vítima.

A primeira edição de sua obra completa foi publicada em 1923. Em 2008, “Cruz e Souza – Dante Negro do Brasil” foi publicado pela editora Pallas e traz a sua biografia.

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“Cruz e Sousa é singular em termos étnicos e existenciais. Isto é deixado bem claro por Uelinton Farias desde o começo do texto, ao caracterizá-lo como negro retinto, de origem banta, sem qualquer mescla de sangue europeu, logo diverso em origem de muitos homens negros que lhe seriam contemporâneos, entre os quais Machado de Assis, José do Patrocínio, Luiz Gama, Ferreira de Araújo, Olavo Bilac, Alcindo Guanabara, Capistrano de Abreu, Barão de Cotegipe, André Rebouças e muitos outros. E ao contrário de outros biógrafos, ele não hesita em afirmar que Cruz e Souza, o menino João da Cruz, se não nasceu escravo, foi ao menos meio-escravo: embora tivesse mãe alforriada, a escravidão pesava sobre o corpo de seu pai.”

“Fundador e um dos principais representantes do simbolismo no Brasil, Cruz e Souza foi um dos precursores da literatura afro-brasileira e figura proeminente de seu tempo. Nascido e crescido num meio extremamente hostil ao negro, em província do sul do país para onde se dirigiram levas de imigrantes europeus brancos, Cruz e Sousa deparou-se, ao longo de sua curta vida, com inúmeras barreiras, sendo emparedado de diversas maneiras. Em plena vigência das políticas de branqueamento no país, o poeta afrodescendente foi vítima de vários episódios racistas.” Literafro 

Sua indignação e posição contrária ao racismo e às injustiças pelas quais os negros passavam, está claramente explícita em suas obras demonstrando seu discurso oposto ao conservadorismo da época.

Livre
“Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças”


Trecho do filme Cruz e Souza – O Poeta do Desterro, de Sylvio Back |

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