Literatura

Série Leia Autores negros – Entrevista com Conceição Evaristo

Mineira, apaixonada pela leitura e posteriormente pela escrita, Conceição Evaristo é mais do que uma inspiração para nós mulheres negras. É muitas vezes um ponto de partida para estudos e conhecimento da literatura afro brasileira.

Nos dias 20 a  24 de julho, o Instituto Cultural Casarão das Artes realizou em Belo Horizonte a 1ª Mostra Mulher Negra e Arte – Uma homenagem à Conceição Evaristo. Painéis com temas sobre cinema, arte, literatura e o empoderamento da mulher negra estiveram presentes na mostra.

Confira a entrevista da maravilhosa Conceição Evaristo para o blog Beleza Black Power.

BBB – Nascida em Belo Horizonte e criada aqui, você mudou-se para o Rio de Janeiro ainda jovem. Qual foi o impacto de morar aqui em Belo Horizonte, da sua criação, para a decisão em começar a escrever? Sua família te influenciou muito?

Conceição: Eu já escrevia, quando sai para o Rio de Janeiro. Desde criança eu escrevi muito, sempre gostei de escrever em redação de escola, então eu só não sabia no que daria. Na minha adolescência eu tive um diário, que se perdeu, mas o gosto pela leitura e pela escrita sempre existiu. O gosto pela contação de histórias, minha mãe fazia bonecas e durante sua feitura já inventava a história, minha mãe tinha uma pedagogia na oralidade. O exercício da escrita foi introduzido pelo próprio hábito que tínhamos pela leitura.

BBB – E a famosa escrevivência definida em seus textos, o que é?

Conceição: O termo surgiu quando estava num seminário de Literatura numa mesa de escritoras negras e tínhamos que dar um depoimento, com Miriam Alves, Lia vieira, Esmeralda Ribeiro e Mãe Beata de Iemanjá. Eu disse o seguinte “A nossa Escrivência, ela não pode ser para adormecer os da casa grande e sim para acordá-los dos seus sonos injustos.” Quando eu usei este termo, queria contrapor a nossa escrita à imagem da mãe preta. Que era aquela mãe que ficava na casa grande e contava as histórias para adormecer a prole colonizatória. A nossa escrevivência , que é uma escrita da vivência, ela não é mais para adormecer os senhores, pelo contrário, ela é para acordar, para incomodar. E a base da minha escrita, ela vem mesmo do cotidiano, das situações. O que eu assisto,  o que eu vivo, o que já ouvi dizer. Então ela é muito marcada pela vivência, pelas condições da comunidade afro brasileira.

BBB – Inclusive em sua obra “Olhos D’água” são relatadas muitas vivências de várias mulheres negras, essa foi também a base para a sua escrita?

Conceição: Sim. Sem dúvida. A vivência e a existência é o nosso lugar no mundo, nosso modo de interpretar a vida é extremamente ligado às nossas experiências de vida.

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Fotografia: Sol Brito

BBB – Certa vez vi um vídeo onde você falava sobre a vida de Oxum. Que ela era a porta – voz das mulheres e que você queria ser com seus textos, também a porta voz das mulheres negras. Você acha que conquistou esse lugar?

Acho que sim. Há uma identificação muito grande das mulheres com meus textos. Como eu trago histórias de vida, mesmo quando são histórias individuais, particulares , ela simboliza a vida de outras mulheres. Por exemplo, quando pegamos o livro “A cor da ternura” de Geni Guimarães e lemos aquele livro,  todo o processo de formação de Geni, a dificuldade dela pra chegar na escola, os preconceitos que ela sofreu na escola, a trajetória dela profissional, parte de uma história muito particular que é de uma mulher negra lá no interior de São Paulo, mas que pode ser sua ou de qualquer uma de nós. Então eu digo ser porta-voz nesse sentido. Quando eu escrevo por exemplo, a história de Ponciá Vicêncio, que tem muito de ficção, mas a realidade que nós vivemos, nos permite criar esta ficção. Tem uma fala de um escritor que diz “só escreve ficção, quem conhece a realidade”. Falo que nada em Becos da Memória por exemplo, é verdade mas nada é mentira. São memórias ficcionadas. A base deste texto é uma base concreta, existe sim uma ficção, mas o substrato dessa história é a realidade.

BBB – Sim. Percebemos que o papel da ancestralidade em seus textos é muito forte.

A ancestralidade aparece nos meus textos de forma muito natural, porque como mineira, você sabe que somos extremamente católicos, então minha família é muito católica. Mas mesmo assim, o catolicismo não conseguiu acabar com essas memórias. No meu último livro Histórias de leves enganos e parencenças tem a moça de vestido amarelo, em que a vivência de uma ancestralidade africana está lá, mesmo com uma forte pregação católica. Mesmo com outras religiões atuantes, a ancestralidade está em nosso consciente coletivo.

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BBB – Vi que há pouco tempo, durante sua presença na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) juntamente com Ana Maria Machado e outras escritoras, você questionou a ausência de escritoras negras no evento. Diante disso, qual é a sua relação com as editoras? Quais as dificuldades você encontrou ao querer publicar seus livros, você acredita que algumas dificuldades apareceram por ser mulher negra e escrever sobre o povo negro?

Quando fui publicar, a primeira editora para qual mandei meu texto (Ponciá Vicêncio), ele voltou, não foi publicado e ficou muito tempo guardado. Logo em seguida mandei para a Mazza. Como até então publico com editoras que já nascem no mercado objetivando publicar textos de autores negros, então não tive mais problemas. Entrei com publicações na Editora Pallas, pois ela entrou num projeto com publicações pela Ministério da Cultura, que é publicar autoria negra, mas mesmo assim a editora já vinha publicando autores negros há bastante tempo. Em editoras que tem essa postura ideológica, meus livros passam bem. A Malê, editora do meu último livro, também nasceu com esse intuito. Para ser sincera, eu nem busco editoras que tem somente interesses mercadológicos.

BBB – Atualmente, seus textos são utilizados no meio acadêmico, como em teses, artigos ou até mesmo objeto de estudo. Como foi para você entrar nesse mundo acadêmico, tanto como escritora, quanto como acadêmica?

Hoje nós temos uma quantidade maior de estudantes negros nas universidades, graças às ações afirmativas. Em 1976 quando eu fiz meu curso de letras na UFRJ, podíamos contar nos dedos os alunos negros. Professores negros, mais difícil ainda. E a gente sabe que a academia é racista e que muitas vezes isso é explicitado nos objetos de pesquisa. Quando defendi minha dissertação de mestrado sobre a literatura afro brasileira e de lá pra cá, esses estudos tem tomado um caráter acadêmico, aparecendo em dissertações e teses, mas sempre em situações isoladas. São professores com um olhar perspicaz ou que tenham alguma cumplicidade conosco, que orientam e incentivam esses alunos. Normalmente as universidades como um todo, não oferecem condições nos seus currículos, projetos de curso, a não ser pela boa vontade desses professores. Por isso, acho que vocês jovens devem estar como docente nas universidades, porque ali é um lugar de ponta, pois é ali onde se formam os professores. Vocês que estão concluindo mestrado e doutorado, tratem de estar dentro das universidades como professores, porque senão as universidades não vão mudar.Continuarão embranquecidas.

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Rosália Diogo (jornalista e mestre em Psicologia Social) e Conceição Evaristo

BBB – Qual é o seu conselho para os autores negros que pretendem seguir uma carreira como escritores, com a literatura afro brasileira?

Conhecermos entre nós. Nós mesmos escritores, buscarmos textos literários de autoria negra e conhecer estes textos. A escrita é um exercício, você pode te rum dom da escrita, mas é necessário praticar. A escrita é um dom, mas também é técnica. É sempre bom procurar oficinas das palavras e praticar a escrita. E sermos corajosas como foi Carolina Maria de Jesus. De ter certeza que esse exercício da escrita, também é um exercício que nos cabe por direito. Se morássemos numa sociedade em que a escrita não valesse nada, mas não é nosso caso. Acredito que nós, como sujeitos de uma sociedade em que a escrita tem um valor significativo muito grande, devemos nos apropriar da escrita, como devemos nos apropriar da saúde, da habitação, do trabalho e do lazer. A escrita tem um sentido político enquanto possibilidade de criarmos uma escrita, a partir da nossa própria subjetividade principalmente em contraponto em relação ao que escrevem sobre nós.

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Quem vos escreve e Conceição Evaristo

As obras de Conceição Evaristo são repletas de histórias que poderiam ser nossas ou de nossas mães. Histórias de uma sabedoria e ancestralidade que nos comove e nos motiva de maneira inexplicável. Ler Conceição é de uma grandeza e clareza, que nos faz repensar sobre nosso papel na sociedade como mulheres negras que somos.

Entrevistar Conceição Evaristo foi algo mágico e completamente empoderador. Reforço o que sempre estará neste Blog: Leia autores negros! Leia Conceição Evaristo.

Por Kelly Souza

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