cabelo, Cultura

Dreadlocks na moda: apropriação cultural?

Sempre me perguntei sobre a origem e história dos dreadlocks. Existe uma carga cultural imensa, assim como as tranças e outros símbolos históricos.

Há um tempo, vi uma publicação no Facebook, onde explicava  a possível origem dos dreads:

“O termo “Dreadlocks” vem de um movimento de guerreiros que juraram não cortar seu cabelo até que Haile Selassie, o imperador da Etiópia nesses tempos, fosse libertado do exílio após conduzir a resistência contra a invasão italiana.
O cabelo desses guerreiros se enredou e começou a se fechar com o tempo.
Como os guerreiros com os cabelos emaranhados foram “Temidos” (Dreaded em inglês),o termo “Dreadlocks” se popularizou. (…)”

Revista Negarit

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Pesquisando um pouco mais, chegamos a informação de que os dreadlocks podem ter tido origem na Índia, há milhares de anos, mas encontramos mais informações em relação ao seu surgimento na Etiópia em meados do século 20, por meio da cultura Rastafari.

Para os Rastas, a utilização de dreadlocks também é considerado como uma questão espiritual e mental que inspira a paciência.  O uso dos dreads implica a vida natural, para que os cabelos cresçam naturalmente, sem corte ou uso de pentes.

A etimologia da palavra Dreadlock pode ser explicada pelo fato de dread significar temor e respeito. No movimento Rastafari, os dreads são vistos como afirmação de identidade estética “que aceitam seus corpos e a si mesmas pertencendo-se e vencendo assim a alienação sofrida durante o exílio babilônico.”

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Fonte: Cultura Rastafari: Revista Mundo Estranho

Os cabelos com dreadlocks, tornaram-se mundialmente conhecidos a partir de Bob Marley, adepto da cultura rasta. Em suas palavras de amor e empoderamento do povo negro, Marley cantava o seu reggae e proclamava a paz. Atualmente muitos acreditam que os dreads surgiram com a figura de Marley, mas ele na verdade foi o responsável por difundir mundialmente a cultura. Claro que há  reconhecimento e representatividade em seu nome, mas a história é muito mais complexa.

Conheça um pouco sobre a cultura Rastafari na Jamaica. Terra de Bob Marley.

Diante dos fatos, fazer dreadlocks sem pertencer a uma certa cultura ou ao menos estudar sobre a mesma é realmente certo? Não seria de certa maneira apropriação cultural? É necessário um estudo muito aprofundado sobre a cultura Rastafári para entender-se por completo o significado dos dreadlocks, mas de qualquer forma, sabemos que não deve tornar-se uma moda.

Atualmente vimos os dreadlocks tornando-se modismo entre famosos e anônimos a todo o momento.

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Fonte: google images

“Além de ser um estilo tradicional da cultura negra, no Brasil os dreads podem ser feitos em cabeleireiros tipicamente black, mas também são opção comum em salões de classe média com preços de R$ 300 a R$ 800, e tempo de produção de 5 a 12 horas.”

Em situações envolvendo famosos e os dreads, podemos recordar algumas onde pessoas negras sofreram ofensas racistas e pejorativas (Zendaya Coleman Oscar/2015) , enquanto pessoas brancas tiveram seus visuais vistos como “descolados” e “cools” (Atriz da Rede Globo faz dreads).

Segundo relatos e textos, podemos notar que existe uma ideologia muito profunda e séria por trás dos dreads, não se resumindo a raggae e pessoas brancas”descoladas” e “cool”. Na verdade não trata-se de brancos usando dreads, mas sim de quando negros os usam são considerados desleixados, sujos e vários outros termos pejorativos.

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Fonte: bobmarley.com

Em entrevista com os integrantes Lucas e Thiago do Coletivo Roots Ativa, seguidores da Cultura Rastafari  de Belo Horizonte acreditam que somos livres para sermos o que quisermos ser, inclusive com nossos cabelos. Porém, não acredita que os dreads devam fazer parte de uma simples moda. “O DREAD um símbolo muito importante em nossa cultura, mas também não é o que define, muito dos votos (Rastafari), estão ligados ao voto nazireu, que está na biblia em número 6, que diz para deixar crescer livre as madeixas dos cabelos, quando se aparta para o serviço ao Deus todo Poderoso. O Esvaziamento dos símbolos é algo que realmente deixa cada vez mais confuso, quando era algo para se apartar de nossa sociedade e hoje nela muitos usando como moda.”

Para entender e conhecer um pouco mais sobre a Cultura Rastafari:

A trancista Célia Pereira, reconhecida em Belo Horizonte por fazer dreads e tranças há anos diz que o ideal é que o uso dos dread não seja “proibido”, desde que haja um conhecimento prévio sobre a cultura dos mesmos. “Todas es pessoas com as quais eu trabalho, gosto de deixar claro a história dos dreadloks. Eu mesma uso os dreads e sei de toda a sua história e carga cultural. Não aconselho que as pessoas os façam por moda.”

Caso você pense em fazer ou tenha dread e nunca refletiu sobre isso, comece a refletir. Apropriar-se de culturas ou/e de costumes pode ser ofensivo e desrespeitoso. Entenda e procure conhecer mais sobre a cultura rastafari e a origem dos dreadlocks antes de usá-los, assim como qualquer outro objeto que tenha valores culturais importantes.

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Sugestões de leitura

 ” A mulher negra e o Feminismo”

O Hebreu Negro

O Rastafári

30 anos sem Bob Marley: como surgiram e onde estão hoje as bandeiras levantadas pelo músico

 

 

 

 

 

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6 thoughts on “Dreadlocks na moda: apropriação cultural?”

  1. Sou branca e minha filha, também branca, tem dreads. Não obstante, acheu o artigo bacana e acrescentaria o texto da filósofa Djamila Ribeiro:

    “Apropriação cultural é um problema do sistema, não de indivíduos

    Ultimamente tem se falado muito sobre apropriação cultural nas redes sociais. Textos e mais textos sobre o tema, discussões, muitas vezes infrutíferas, e esvaziamento de conceitos. Sim, acredito que é necessário se discutir essa questão com seriedade, porém, sem intransigências e desonestidade. Há colunistas, por exemplo, escrevendo que apropriação cultural não existe, e por outro lado, pessoas colocando a responsabilidade nos indivíduos, ignorando as questões estruturais. Acredito que ambos os caminhos são equivocados.
    Precisamos entender como o sistema funciona. Por exemplo: durante muito tempo, o samba foi criminalizado, tido como coisa de ‘preto favelado’, mas, a partir do momento que se percebe a possibilidade de lucro do samba, a imagem muda. E a imagem mudar significa que se embranquece seus símbolos e atores para com o objetivo de mercantilização. Para ganhar dinheiro, o capitalista coloca o branco como a nova cara do samba.

    Por que isso é um problema? Porque esvazia de sentido uma cultura com o propósito de mercantilização ao mesmo tempo em que exclui e invisibiliza quem produz. Essa apropriação cultural cínica não se transforma em respeito e em direitos na prática do dia-a-dia. Mulheres negras não passaram a ser tratadas com dignidade, por exemplo, porque o samba ganhou o status de símbolo nacional. E é extremamente importante apontar isso: falar sobre apropriação cultural significa apontar uma questão que envolve um apagamento de quem sempre foi inferiorizado e vê sua cultura ganhando proporções maiores, mas com outro protagonista. Uma frase do poeta americano B. Easy, compartilhada no Twitter, e bastante compartilhadas nas redes sociais faz todo o sentido nessa discussão:

    ‘A cultura negra é popular, mas as pessoas negras, não’.

    Uma coisa é a troca, o intercâmbio de culturas, o que é muito positivo. Outra coisa é a apropriação. No nosso país, as culturas foram hierarquizadas, sendo a negra colocada como inferior, exótica. Dentro desse contexto é possível falar em troca? A troca só é possível quando não existem hierarquias. Enquanto terreiros são invadidos, há marcas que acham cult colocar modelos brancas representando Iemanjá. Esse discurso de que a cultura é humana só é válida quando querem apropriá-la. No momento de considerar a humanidade daqueles que produzem essa cultura, a história é bem diferente. No momento de perceber a necessidade histórica de ser representado e ter posse de sua história, é ignorado. E esse é ponto nevrálgico da nossa crítica em relação à apropriação cultural.

    Porém, isso não significa culpabilizar os indivíduos que estão inseridos dentro dessa lógica. Não julgo certo apontar dedos para pessoas brancas que fazem uso da cultura negra por alguns motivos. Primeiro, muitas dessas pessoas desconhecem a discussão sobre apropriação cultural, segundo, não se pode responsabilizar somente os sujeitos e, por fim, estamos falando de um problema estrutural.

    A crítica deve ser feitas às indústrias que lucram com isso. Achei correta a crítica feita à marca Farm quando colocou várias modelos brancas usando turbantes e nenhuma negra. A marca estava lucrando com um símbolo sem dar protagonismo aos sujeitos que os produzem. Agora, criticar uma pessoa somente por fazer o mesmo, acho energia gasta com o alvo errado.

    É necessário, sim, se problematizar essas questões, mas tendo em mente que vivemos numa sociedade capitalista e nesta, tudo vira mercadoria.”

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  2. Então não há problema ser branco e fazer dreads ou usar turbante. O que não pode é mercantilizar e/ou virar moda, certo? Tenho muita vontade em fazer dread por fazer parte do movimento Rastafari, mas nunca em me apropriar de uma cultura. Porém sou branco e descendente de japônes, não sei se isso seria um problema.

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  3. Existem notícias do surgimento do uso do cabelo assim desde 200 DC. Existem múmias achadas no Peru que tinham dread no período de 200 DC até 800 DC . Então ninguém está se apropriando da cultura negra até mesmo porque não é pertencente somente aos povos negros. Os cabelos dreads foram usados por MUITOS povos anteriores aos Jamaicanos. Na Jamaica só houve a popularização dessa cultura graças ao Bob Marley. O cabelo dread é algo natural e universal porque qualquer um que não cortar e nem pentear o cabelo vai ter o dreads natural e isso seja branco, negro ou amarelo. Vamos parar com esse termo de “apropriação cultural” porque isso pode gerar preconceito para com quem não entende a cultura Rasta e tem dread. Sou negro tenho cabelo dread há 10 anos e não sou Rasta, tenho porque acho bonito e só.

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